Disfunção Miccional

30 de maio de 2017

O que é disfunção miccional?

O termo disfunção miccional é utilizado para definir alterações no ato da micção. Para que a pessoa urine bem é necessário que a bexiga e a uretra estejam coordenadas em seus movimentos, ou seja, a bexiga contrai para expulsar a urina e ao mesmo tempo, a uretra e o esfíncter se abrem permitindo que a urina seja eliminada sem nenhuma pressão e esvaziando totalmente a bexiga.

Nas pessoas que apresentam algum tipo de disfunção miccional essa incoordenação não permite que a urina seja eliminada facilmente, ou seja, a bexiga contrai e a uretra não abre. Essa incoordenação faz com que a bexiga tenha que fazer muita força para eliminar a urina e às vezes não consiga elimina-la, causando um distúrbio de esvaziamento da bexiga.

Esta dificuldade em esvaziar a bexiga pode ser muito ruim não só para a bexiga, mas, também para os rins.

Também conhecida como disfunção do trato urinário inferior, as disfunções miccionais  envolvem todos os problemas da bexiga de armazenamento e esvaziamento da urina. Quando falamos dos problemas de esvaziamento o termo disfunção micional é mais utilizado e pode ser conhecido por algumas pessoas como pseudo dissinergia ou dissinergia vesico esfincteriana que são termo que querem dizer basicamente a mesma coisa.

Crianças apresentam disfunção miccional?

A disfunção miccional acomete tanto adultos quanto crianças e é especialmente frequente na população pediátrica.

É importante sabermos que quando usamos o termo disfunção miccional estamos falando de um distúrbio no ato de urinar, em pessoas adultas ou em crianças neurologicamente normais e é essa condição que diferencia das bexigas neurogênicas ou dos distúrbios neurogênicos, em que, uma pessoa adulta ou criança acabam tendo um problema miccional decorrente de um trauma ou de uma doença neurológica, ou seja, estamos nos referindo a um problema do funcionamento sem uma questão anatômica neurológica detectável.

Quais são os sintomas das disfunções miccionais?

As disfunções miccionais têm uma gama enorme de formas de apresentação, a mais comum é a incontinência urinária, ou seja, mães e cuidadores procuram ajuda médica porque aquela criança que já passou da idade, onde se esperaria que ela já tivesse controle e ela ainda continua perdendo urina nas roupas.

Essa perda de urinas pode acontecer durante o dia com a criança acordada ou durante a noite, quando a criança está dormindo, chamada de enurese noturna. Não raramente essas crianças apresentam infecções urinarias que às vezes são de repetição e precisam ser avaliadas por um médico.

É muito importante lembrar que quase 30% das pessoas, crianças ou adultos, que tem disfunção miccional apresentam também constipação intestinal, conhecido também como intestino preso. Essa associação é bastante comum e para que haja bom resultado no tratamento, ambas devem ser abordadas e tratadas pelo médico especialista.

Como é feito o diagnóstico da disfunção miccional?

O diagnóstico é feito basicamente com uma boa anamnese, diário miccional e exames físicos, que normalmente são normais.

  • Anamnese é um instrumento utilizado pelo profissional de saúde com o intuito de conhcer a estória clinica do paciente.
  • Diário miccional é uma cartilha que tem como objetivo conhecer o hábito miccional e intestinal da criança, ou seja, os pais e/ou cuidadores durante dois ou três dias irão registrar o número de vezes que a criança fez xixi, qual o volume, se houveram perdas diurnas e/ou noturnas, quanto de liquido a criança ingeriu.

Para a confirmação do diagnóstico de distúrbios de eliminação, ou seja, problemas de esvaziamento da bexiga são solicitados dois exames complementares:

  • Urofluxometria: nesse exame a criança faz xixi em cima de um funil que está conectado a um copinho e a uma célula de carga, essa célula de carga está conectada a um softwear que irá avaliar como é a vazão urinária da criança, se urina com um bom jato, um jato livre. Além disso, sensores e eletrodos de superfície na pele são conectados a um aparelho chamado de eletromiografia. Nele é possível observar além do fluxo da urina, se as crianças relaxam a musculatura perineal na hora de urinar, que é o grande problema dessa população que tem disfunção miccional, elas não conseguem relaxar a musculatura.
  • Ultrassonografia: através desse exame é possível avaliar o trato urinário superior, avaliar sua integridade e avaliar a bexiga.  Os exames de ultrassonografia são realizados inicialmente com a bexiga cheia e depois com a bexiga vazia. Desta forma, o médico pode avaliar se houve esvaziamento total da bexiga ou se sobrou algum resíduo significativo. Se há sobra residual significativa provavelmente esteja havendo uma disfunção no ato da eliminação de urina.

Qual o tratamento para disfunção miccional?

Inicialmente o tratamento deve ser feito através do que os médicos chamam de uroterapia, em que médicos recomendam às crianças que tenham um hábito de urinar relaxado. Para isso algumas dicas são muito importantes na hora de fazer xixi:

  • Crianças ainda pequenas necessitam de uma escadinha ou banquinho para conseguirem apoiar as plantas dos pés e ficarem relaxadas.
  • Se necessário que seja colocado um adaptador redutor do assento sanitário, desta forma poderão se assentar corretamente e  não ficarão inseguras e com medo de cair.
  • Devem abaixar as roupas intimas até que se sintam totalmente livres.
  • Orienta-las para que não façam xixi e coco com pressa.
  • Orienta-las para que não fiquem segurando o xixi por muito tempo.

Outra possibilidade de tratamento são os tratamentos com biofeedbacks, onde o profissional de saúde irá mostrar à criança como ela deve fazer para ter uma micção mais próxima do normal possível.

Esses tratamentos são baseados em uma estrutura onde através de eletrodos que são colocados em superfície e ligados a um aparelho chamado de eletromiografia  a criança com a ajuda de um fisioterapeuta pode através da tela de computador identificar se ela está conseguindo relaxar adequadamente ou não as musculaturas envolvidas no ato miccional.

Basicamente, as crianças que têm algum distúrbio de esvaziamento precisam relaxar e reconhecer a própria musculatura.

Há ainda outro grupo especial de crianças com distúrbio do trato urinário inferior que precisam de atenção, são as crianças retencionistas, suas bexigas são denominadas como bexigas preguiçosas, também conhecidas como lazy bladder.

Essas crianças fazem menos de três micções ao dia, elas desenvolvem um comportamento de reter a urina, e frequentemente são crianças retentoras fecais, ou seja, sofrem de obstipação intestinal.

Ao estudar a bexiga dessas crianças percebemos uma super dilatação provocada pelo comportamento de reter a urina, também se acredita que essas bexigas podem ser sequelas das crianças que ficaram muito tempo com uma disfunção miccional e fazendo muita força para conseguir eliminar a urina sem conseguir que a uretra relaxasse e o canal se abrisse tornando as paredes da bexiga flácidas. Mas, tanto faz se é uma sequela de uma disfunção miccional ou se foram crianças que criaram o comportamento de segurar a urina desenvolvendo megabexigas.

Características de crianças com bexigas preguiçosas:

– vão pouco ao banheiro, no máximo 3 vezes ao dia;
– urinam mal com o jato fraco;
– normalmente sofrem com intestino preso.

Essas crianças devem ser encaminhadas para tratamento adequado, porque essas bexigas hipotônicas podem cursar com infecções urinárias, alterações do trato urinário superior e até mesmo haver comprometimento da função dos rins.

As disfunções do trato urinário inferior em crianças sadias neurologicamente envolvem várias situações, que vão de forma reduzida desde as disfunções miccionais de esvaziamento, passa por bexigas hipocontráteis (bexigas preguiçosas, obstipação intestinal), e existe ainda outro grupo que são as crianças que têm urgência para urinar, às vezes perdem urina antes de conseguirem chegar ao banheiro.

Crianças que têm dificuldade em segurar o xixi precisam ir muito rápido ao banheiro, sendo necessário informar à escola que essas crianças devem ter uma liberdade maior para deixarem a sala de aula e irem ao banheiro assim que sentirem vontade.

Broncas não ajudam em nada as crianças que sofrem com as disfunções miccionais. O que os pais devem saber para preservar a saúde emocional de seus filhos?

Todos devem preservar a saúde emocional das crianças, porque elas não escolheram por ter disfunção miccional e o que vemos na prática é que alguns cuidadores acham que essas crianças perdem urina porque querem, ou para fazer birra ou fazem xixi durante a noite pelos mesmos motivos e acabam tendo uma postura punitiva com a criança.

Quanto mais pressionadas, ou seja, quanto mais essas crianças recebem broncas e castigos porque perderam urina na roupa ou enquanto dormiam, mais elas se sentiram  derrotadas do ponto de vista emocional. Elas começam a ficar numa situação onde não veem saída!

É importante lembrar que se trata de um distúrbio, as crianças não têm controle dessa situação. Quando encontram nos pais e/ou cuidadores uma resposta negativa, falta de apoio, pressão em ter que resolver o problema e muitas vezes castigos e punições, se sentem ainda piores.

Sentimentos de incapacidade e frustração afetam diretamente a autoestima dessas crianças.

Dr. Fábio Nascimento, uropediatra acrescenta:

“A falta de apoio e auxilio por parte dos pais e cuidadores é a parte mais nefasta de todo o processo, porque em algum momento nós médicos iremos nos encontrar com essas crianças e adolescentes e vamos tratá-los, mas o estrago e o impacto emocional que isso pode ter na infância de uma criança que foi humilhada, que passou vergonha por perder urina, pode ser que nós não consigamos reverter.

Então a grande mensagem para os pais, cuidadores e profissionais da área da saúde que cuidam e trabalham com essas crianças é que essas crianças devem ser tratadas com carinho, elas não devem se sentir diferentes de outras crianças, elas precisam ser orientadas, que receberão ajuda, que o problema irá melhorar e desta forma iremos cuidar para que as disfunções miccionais não afetem a estrutura comportamental e emocional delas.”

Por Dr Fábio José Nascimento
Especialista em Andrologia, Endourologia e Laparoscopia Urológica, Urologia Feminina e Urodinâmica, Urologia Oncológica, Urologia Pediátrica

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